O que é Portugal? Como está a mudar a sociedade portuguesa? Como é que a cultura portuguesa interpreta e influencia a mudança social? Como é que a tensão entre o que dizemos que somos (a identidade) e o que dizemos querer ser (a transformação) ilumina quer a situação e o devir da sociedade portuguesa, quer as criações artísticas e as práticas culturais que ocorrem em Portugal?

Este projeto de investigação quer responder a estas perguntas. Elas não são, naturalmente, exclusivas do nosso país: em virtualmente todas as nações, a questão da identidade e da mudança social constitui um tema maior das respetivas culturas. Mas, por razões que Eduardo Lourenço (1978) explicou melhor do que ninguém, adquirem entre nós uma acuidade que tem poucos paralelos internacionais.

  1. Assim, o objetivo central do projeto Portugal ao Espelho centra-se na análise da cultura portuguesa contemporânea do ponto de vista da pluralidade dos discursos artísticos que nela circulam sobre a tensão entre identidade e transformação societal. A exploração deste objetivo geral leva-nos à assunção de que os discursos artísticos são plurais, como plurais são os seus objetos, temas e pontos de vista: trata-se, portanto, de apreender o modo como múltiplas identidades e transformações, muitas vezes conflituantes, são tematizadas e (re)definidas no âmbito próprio das linguagens de criação e receção cultural. Partimos ainda da perspetiva de que os discursos que emergem e circulam no campo artístico e social não se formam apenas na criação autoral, mas também nas interpretações críticas que são a seu propósito construídas e nas apropriações que diversos públicos dela fazem.
  2. Essa pluralidade discursiva será centrada, no âmbito deste projecto, em três domínios criativos – diversificados, mas todos muito enriquecidos pela temática das identidades e transformações: a literatura; o “cinema de autor”, como criação artística no cruzamento entre as artes visuais e a indústria cultural; e, no campo desta última, duas formas muito importantes de música popular (no sentido de cultura de massas, não de cultura tradicional), a canção e o pop rock. De facto, todos sabemos da centralidade que os temas ligados ao ser e ao devir português têm tido na criação artística de romancistas e poetas, de realizadores de cinema e de cantautores e bandas juvenis; e como essa centralidade constitui um dos eixos do valor e singularidade da sua expressão artística. Por isso mesmo, avançaremos bastante se, em vez de segmentar, cruzarmos analiticamente estas diversas formas, apreciando melhor como aqueles temas e expressões variam também em função dos modos de produção e circulação que fazem a arte, cultura e comunicação do nosso tempo.
  3. Consequentemente, este projecto intenta a concretização de dois tipos de resultados: a produção científica convencional corporizada na elaboração de um livro e vários artigos para publicação em revistas indexadas; e a preparação de materiais de formação utilizáveis na rede de centros de língua e cultura portuguesa no estrangeiro, no quadro da abordagem que neles se faz, ou pode fazer, à cultura portuguesa contemporânea. Estão aqui em questão, sobretudo, a rede do Instituto Camões e da própria Fundação Calouste Gulbenkian (França e Reino Unido em especial). Mas não exclusivamente, visto que outros espaços de difusão da cultura portuguesa (em universidades estrangeiras que oferecem o ensino do português por sua iniciativa, em associações, fundações e outras instituições privadas, etc.) podem também beneficiar dos referidos materiais.

Numa palavra: o projeto pretende construir uma “caixa de ferramentas” para a formação modular em cultura portuguesa contemporânea, aplicável com as necessárias adaptações a diferentes contextos e finalidades de formação. Portanto, é nosso objetivo não só a qualificação da investigação nestes domínios transversais e inusitados que têm na criação artística o objeto central, mas uma ambição de pragmatismo e utilidade dos próprios resultados da investigação. Aqui reside um aspeto central da originalidade deste projeto.